O que é um acorde de Sexta Aumentada?

O acorde de sexta aumentada é um acorde pré-dominante caracterizado pela presença do intervalo de sexta aumentada.

1. Introdução

A figura abaixo contém um trecho a duas vozes na tonalidade de Sol menor, finalizando na dominante. O intervalo de sexta aumentada ocorre no terceiro tempo do primeiro compasso, entre as notas Mi bemol e Dó sustenido, ambas convergindo para o grau da dominante da tonalidade.

Fig.1: Intervalo de sexta aumentada em seu contexto harmônico

A figura abaixo contém um exemplo utilizado por Beethoven na sua Sonata para piano Op. 10, n. 1, mov. 3, precedendo a dominante da tonalidade.

Fig.2: Acorde de sexta aumentada aplicado na ‘vida real’.

Este acorde proporciona uma sonoridade cromática precedendo a dominante da tonalidade. A imagem abaixo contém três passagens precedendo a dominante de em Sol menor, duas diatônicas (i iio V e i iv V) e uma cromática: i 6aum V.

Fig.3: Comparação entre sonoridades diatônicas e cromática promovida pela sexta aumentada

2. Construção

Além do intervalo característico de sexta aumentada, este acorde também é reconhecido pela resolução deste intervalo, com ambas as notas se movendo por semitom para a dominante da tonalidade.

Há três acordes construídos a partir desta base de sexta aumentada, chamados de Sexta aumentada italiana, francesa e alemã. Em todos esses acordes, a tônica da tonalidade está presente. No exemplo anterior, a nota Sol.

Nos três acordes, portanto, há a presença da tônica, e dos graus semitom acima e semitom abaixo da dominante. Por exemplo, se a tonalidade é Ré menor, a sexta aumentada será formada pela própria tônica (Ré) e pelas notas em torno da dominante: Si bemol e Sol sustenido.

É interessante observar que este é um acorde relacionado à tonalidade, não a um grau em especial, como quarto grau menor ou maior.

2.1. Sexta aumentada italiana

O acorde de sexta aumentada italiana contém apenas as três notas que formam a base do acorde de sexta aumentada (tônica e notas em torno da dominante). Assim, o terceiro acorde da figura 3 é de sexta aumentada italiana, bem como o segundo acorde da figura abaixo.

Fig.4: Acorde de sexta aumentada italiana.

2.2. Sexta aumentada francesa

O acorde de sexta aumentada francesa contém todas as notas do acorde italiano, acrescido do segundo grau da tonalidade.

Fig.5: Acorde de sexta aumentada francesa.

2.3. Sexta aumentada alemã

O acorde de sexta aumentada alemã contém todas as notas do acorde italiano, acrescido do terceiro grau da tonalidade.

Fig.6: Acorde de sexta aumentada alemã.

Este acorde é especialmente interessante pela sua resolução. Na figura 7, o acorde de sexta aumentada alemã é sucedido imediatamente pelo acorde de dominante, tal como ocorreu nos exemplos anteriores das outras sextas aumentadas. É possível observar que este movimento gera um movimento de quintas paralelas entre baixo e contralto (notas em vermelho).

Fig.7: Acorde de sexta aumentada alemã com problemas de condução de vozes.

Na literatura musical há dois procedimentos comuns para evitar este paralelismo:

  1. Utilizar um conjunto de “6-4 cadencial” ao invés de um acorde de dominante simples.
  2. Alterar o acorde de sexta aumentada para italiana ou francesa antes da resolução no acorde de dominante.

A figura 6 contém um exemplo de 6-4 cadencial. Este acorde funciona como um grande acorde dominante 1 e, em função da mudança de acorde, o intervalo de quinta entre baixo e contralto é diluído, transformado em um intervalo de sexta menor (Sol-Mi bemol) e, em seguida, transformado em uma nova quinta. Este procedimento elimina o paralelismo.

A figura 2 contém um exemplo de alteração da sexta aumentada alemã para outro tipo antes da resolução. Neste exemplo, pode-se entender as notas Ré e Fá do compasso 4 como parte de uma dupla bordadura em torno do Mi bemol, a nota característica da sexta aumentada alemã. Em seguida há uma passagem pela nota Ré até chegar à nota Dó e finalmente a resolução no acorde dominante. No momento em que passa por esta nota Dó, tônica do trecho, o acorde se transforma em sexta italiana. Este procedimento também elimina o paralelismo.

Um outro aspecto interessante neste acorde diz respeito à enarmonia. A reescrita deste acorde alterando enarmonicamente o intervalo de sexta aumentada para um intervalo de sétima menor altera completamente o acorde, embora, de forma isolada, tenha a mesma sonoridade. A diferença crucial é a resolução que se espera de uma sétima, sempre descente e em grau conjunto. A alteração enarmônica do acorde de sexta aumentada da tonalidade de Dó menor, por exemplo, gera um acorde de Lá bemol com sétima da dominante. Por exemplo, a figura 8 contém uma passagem semelhante à da figura 7, mas com a alteração enarmônica do acorde de sexta aumentada.

Fig.8: Acorde enarmônico da sexta aumentada alemã.

3. Comparativo

A figura 9 contém um comparativo com as três sextas aumentadas, para comparação.

Fig.9: Acordes de sexta aumentada italiana, francesa e alemã.

4. Baixo cifrado

O baixo cifrado para estes acordes pode causar confusão com os baixos de outros acordes. A principal diferença estará sempre na notação do intervalo de sexta aumentada.

Fig.10: Baixo cifrado de sexta aumentada italiana, francesa e alemã.

5. Perguntas frequentes

  1. O intervalo de sexta aumentada precisa ocorrer entre as notas do baixo e soprano? Não, pode ocorrer em qualquer voz.
  2. É possível dobrar outra qualquer nota na sexta aumentada italiana? Não, pois como as outras notas têm resolução obrigatória, no momento da resolução geraria oitavas paralelas.
  3. A sexta napolitana é um tipo de sexta aumentada? Não, embora seja também um acorde pré-dominante, tem construção e sonoridade completamente diferentes.

A sonoridade da sexta aumentada não é muito comum na música popular. Apesar de rara, existe.

No exemplo do vídeo abaixo, este acorde ocorre de maneira insistente.

7. Exemplos apresentados

8. Bibliografia

Este assunto é apresentado em diversos dos livros de harmonia. Duas referências interessantes são os livros de Robert Gauldin e de Kostka e autores.

  1. Gauldin, Robert. 1997. Harmonic Practice in Tonal Music. New York, NY: W.W. Norton and Company.
  2. Kostka, Stefan M., Dorothy Payne, and Byron Almén. 2017. Tonal Harmony: With an Introduction to Post-Tonal Music. 8th ed. New York: McGraw-Hill Education.

9. Referências


  1. Em breve teremos um post sobre acordes em segunda inversão. ↩︎

Marcos Sampaio
Marcos Sampaio
Professor de Teoria e Composição Musical

Meus interesses de pesquisa incluem Musicologia Computacional, Contornos melódicos, Teoria Musical e Joseph Haydn.

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